O que as grandes negociações de 2019 nos dizem sobre a próxima década

Diferentemente do clima terrestre, o clima para os negócios permaneceu teimosamente inalterado em 2019 – ou não?

Por: Benjamin Gomes-Casseres - Harvard Business Review 

Negócios fechados são indicadores tanto negativos quanto positivos de transformações na economia. Alguns remetem a situações passadas, e outros sinalizam tendências emergentes. Uma análise das negociações concretizadas (e não concretizadas) mais marcantes do último ano pode nos dizer a posição em que estávamos e para onde estamos caminhando.

Segundo várias métricas, a atividade de F&A em 2019 não foi tão alta quanto em anos anteriores, mas o padrão das negociações está se mostrando, em alguns aspectos, novo. Muitas das negociações do ano de 2019 contemplam a consolidação e a digitalização das tendências industriais de décadas passadas. Entretanto, houve sinais de que a década de 2020 irá conduzir a novas tendências em como poderemos lidar com o poder da tecnologia. Vimos, novamente, que a mudança climática não é brincadeira, embora ainda não saibamos como as empresas irão reagir. Com o tempo, os negócios também irão refletir a transformação de nosso mix de energia.

Os negócios de sempre

Dentre as tendências já estabelecidas, em 2019, a área farmacêutica continuou a ganhar força e a aprimorar seus serviços. Desde a década de 1990, as empresas farmacêuticas vêm se consolidando para aumentar seu poder de barganha na cadeia do setor da saúde. Elas também vêm abraçando a inovação de startups biotécnicas. Em 2019, a Bristol-Myers adquiriu a Celgene (US$ 74 bilhões), a Takeda adquiriu a Shire (US$ 62 bilhões), e ambas Sanofi e Novartis adquiriram empresas na casa dos US$ 10 bilhões. Essas negociações, de fato, têm dois objetivos – elas trazem novas tecnologias para as grandes empresas, e mantêm, também, uma estrutura de indústria enxuta. Ao mesmo tempo, as grandes fusões do ano passado das seguradoras (CVS-Aetna e Cigna-Express Scripts) iniciaram o processo de integração, embora ainda haja dúvidas a respeito dos benefícios para os consumidores.

As empresas de mídia e telecomunicações também seguiram diretrizes bem estabelecidas para construir seu poder de mercado. Três grandes fusões foram concretizadas em 2019: Sprint e T-Mobile (US$ 26 bilhões), AT&T e Time Warner (US$85 bilhões) e Disney e 21st Century Fox (US$ 71 bilhões). As aquisições da Disney nos últimos anos estão abastecendo as ofertas agressivas em streaming de vídeos. A batalha do streaming entre Disney, Netflix, Hulu, Amazon, Apple, e HBO vem se avolumando já faz algum tempo, e agora atingiu seu ápice. Esse ecossistema irá, com o tempo, se render à consolidação também, mas ainda não chegamos lá. Por ora, vale tudo para conquistar uma nova geração de consumidores de mídia que querem se ver livres da TV a cabo.

Os produtores industriais também deram sequência a um movimento que começou há dez anos – a dissolução dos conglomerados. A Dow se desmembrou em três no ano passado, como havia prometido quando fez a fusão com a DuPont há dois anos. Essas duas etapas envolviam uma fusão para fortalecer as empresas, seguidas de um desmembramento que aprimoraria o foco em cada um dos negócios, ao mesmo tempo que mantinham seu poder de mercado. Na verdade, a história do desmembramento era normalmente dois passos à frente, e um passo para trás. A Danaher reduziu seu tamanho somente para ganhar força novamente a fim de adquirir a unidade de biofarma da General Electric (US$21 bilhões). A GE, mesmo depois desta venda, parece estar determinada a dobrar sua aposta na área da saúde. No setor aeroespacial e de defesa, a United Technologies, que havia se dividido em três, começou a dar sinais de melhora e se juntou à Raytheon, numa operação de fusão avaliada em US$ 135 bilhões.

Todas essas foram negociações grandiosas, mas foram usuais. Quais negociações podem indicar algo para a década de 2020? Curiosamente, a carência de certos tipos de negociações é o que devemos observar.

Tendências emergentes em tecnologia

Em 2019, houve um esforço renovado para conter o crescimento da tecnologia. A ideia de que empresas como Google, Facebook e Amazon estavam ficando muito grandes e invadindo nossa vida continuou a ganhar terreno em Washington. A Google enfrentou investigações antitruste em 50 estados, e o presidente da FTC (Federal Trade Commission, órgão similar ao Cade no Brasil) sugeriu que poderia fazer outras investigações. Em meados de dezembro, foi dito que a FTC estava pensando numa intimação contra a Facebook para que não integrasse o Instagram, o WhatsApp e o Messenger – caso as autoridades da lei antitruste decidissem, posteriormente, desmembrar a empresa. Esses esforços não levam a lugar nenhum. No entanto, seria surpreendente se a pressão não fizesse com que as grandes empresas de tecnologia se distanciassem de grandes aquisições. Dois grandes negócios em tecnologia foram concretizado sem 2019 (IBM-Red Hat, US$ 34 bilhões) e a Salesforce adquiriu a Tableau (US$ 16 bilhões). Entretanto, Apple, Google e Amazon se contiveram – considerando suas reservas de caixa – nenhuma delas gastou mais de US$ 3 bilhões numa negociação desde 2017.

Uma tendência similar que ganhou terreno em 2019 foi a  delimitação da tecnologia – a construção de uma barreira virtual entre as esferas de influência chinesas e americanas no ramo da tecnologia. Os investimentos da China nos Estados Unidos caíram 90% nos últimos três anos. A guerra comercial deu início a isso, mas a tendência foi impulsionada por suspeita mútua entre as elites desses países e os regimes no poder. Ambos acreditam que novos setores, como inteligência artificial, cibersegurança, e mídias sociais são essenciais para a segurança nacional e para a governabilidade da sociedade. Numa tendência sem precedentes, a Comissão Federal de Comunicações (FCC, em inglês) retirou a Huawei do mercado dos EUA em 2019, alegando preocupações com e segurança de dados. A Google já deixou a China há 10 anos por conta de censura. Mesmo assim, empresas chinesas dominam o mercado chinês, bem como empresas americanas dominam o mercado americano. As empresas de tecnologia apreciam os efeitos do network, mas parece que esse network irá parar na nova delimitação.

O que essas tendências novas e antigas dizem da transformação do mix de energia? Infelizmente, não muita coisa.

Respostas às mudanças climáticas

Com relação à emissão de carbono, a lacuna existente entre onde estamos e onde deveríamos estar é imensa. A energia eólica e a solar estão ganhando terreno, mas ainda leva tempo para que a infraestrutura de nossa energia consiga usar seu potencial por completo. As grandes empresas de petróleo continuam a flertar com as startups de produtos renováveis; pelo menos, essas parcerias propiciam bons comerciais de TV e talvez acalmem os investidores em ESG. No entanto, no mundo todo, o financiamento de projetos e P&D público em energia renovável têm retraído nos últimos anos.

Ainda assim, também houve problemas nas plataformas petrolíferas. A Occidental adquiriu a Anadarko (US$ 38 bilhões), mas a nova empresa imediatamente começou a se desfazer de campos petrolíferos no exterior para pagar a negociação. O investidor ativista Carl Icahn defende a revogação dessa fusão e argumenta que ela prejudica o valor da empresa. Essa opinião surge depois dele conseguir ajudar a arruinar a malfadada fusão de Fuji Film com a Xerox. Os acionistas da Occidental não estão felizes, tampouco os acionistas de empresas petrolíferas. A Exxon, Shell e a BP estão se esforçando para pagar dividendos este ano, e algumas estão reavaliando seus ativos numa atmosfera de preços baixos e pressão social. A tão esperada IPO (Oferta Pública de Aquisição de ações) da Aramco não animou os investidores em combustíveis fósseis; a meta de valor da IPO foi rebaixada e, atualmente, está somente listada no mercado de ações de Riade. Ainda assim, a empresa angariou mais fundos do que qualquer outra IPO na história – o que testemunha o perdurável poder do petróleo.

A melhor novidade do ano sobre negociações, na verdade, não foi uma negociação, mas sim, uma proposta para uma negociação. A proposta para um novo acordo verde (Green New Deal, em inglês) apresentado no Congresso dos Estados Unidos em 2019 exigiu uma ação emergencial do governo para descarbonizar a economia americana de maneira a incentivar a empregabilidade e não prejudicar os mais fracos na sociedade. Essa proposta, efetivamente, pede que repensemos o que filósofos chamam de contrato social entre empresas, governo e sociedade. Este contrato já havia sido quebrado por aqueles com alto poder aquisitivo e pela grande diferença de renda, que vem aumentando desde a década de 1980. As ameaças da mudança climática tornaram essa reconsideração sobre contrato social ainda mais urgente. Sendo assim, não é de se surpreender que, em 2019, até mesmo a Business Roundtable tenha anunciado um novo conjunto de métricas para as empresas que procuram equilibrar os interesses dos acionistas e dos stakeholders.

Em 2019, vimos o dilema do nosso planeta de forma muito mais clara do que jamais havíamos visto anteriormente. As negociações da próxima década sinalizarão como deveremos agir. Algumas irão fortalecer os hábitos já existentes, e mais, espera-se que transformem a economia americana para melhor.

Benjamin Gomes-Casseres é especialista em estratégias societárias e Peter A. Petri é professor na Brandeis University. Ele estuda, leciona e pesquisa sobre estratégia de fusão de empresas há 30 anos, e é autor de três livros, dentre eles Remix strategy: the three laws of business combinations (HBR Press, 2015).

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