Não deixe as notificações push arruinarem sua produtividade

Desde que nossos ancestrais pré-históricos usaram ferramentas de pedra para fazer fogo e caçar animais, a tecnologia tornou nossas atividades mais eficientes e eficazes. Ela nos proporcionou conveniência, uma melhor comunicação e — em termos relativos — uma vida longa e confortável.

Por: Steve Glaveski - Harvard Business Review 

No entanto, tudo que é bom, quando levado ao extremo, se torna ruim. Aristóteles sabia disso, propondo que, para alcançar a felicidade e o sucesso, as pessoas deveriam cultivar virtudes em níveis intermediários entre deficiências e excessos. O sono faz bem para nós, mas dormir 16 horas, nem tanto. Buda também foi um defensor do “caminho do meio”. Da mesma forma, o uso não controlado da tecnologia também pode ter um efeito devastador em nossa produtividade e bem-estar.

O psicólogo húngaro-americano, Mihaly Csikszentmihalyi, cunhou o estado fisiológico de “fluxo” em 1975, como um estado de profunda imersão em uma única tarefa e em que o resto do mundo parece simplesmente se dissolver. A McKinsey descobriu que, quando os executivos estão no estado de fluxo, eles são até cinco vezes mais produtivos.

No entanto, o típico local de trabalho dos dias atuais é caracterizado pela visualização e pelo som das notificações nos computadores e smartphones, mantendo os executivos em um estado de hiperresponsividade que deixaria Ivan Pavlov orgulhoso. De fato, as notificações no aplicativo do Facebook não são muito diferentes daquele som que faria muitos cachorros de Pavlov salivar. As notificações push estão minando nossa capacidade de entrar em estado de fluxo, fazer nosso melhor trabalho e ir para casa nos sentindo verdadeiramente realizados. Em vez disso, estamos mais propensos a sair do trabalho sentindo que trabalhamos o dia todo, mas com baixa produtividade.

O que chamamos de multitarefa é, na verdade, a alternância entre tarefas, porque simplesmente não é verdade que podemos prestar atenção a duas coisas ao mesmo tempo. Depois que uma notificação nos obrigou a alternar entre tarefas, pode levar cerca de 23 minutos para voltarmos ao que estávamos fazendo, de acordo com um estudo da University of Califórnia, em Irvine. Quando você considera que o executivo médio, em um dia, pega o seu smartphone  2.617 vezes, verifica e-mails 74 vezes e recebe 46 notificações , é provável  que a maioria dos executivos nunca passe um segundo sequer em estado de fluxo.

” As notificações me ajudam a ficar informado sobre tudo, mas eu não as abro toda vez que aparecem”, argumentam algumas pessoas. Independentemente de você visualizar ou não uma notificação, sua linha de pensamento será inevitavelmente interrompida por você ter percebido, processado e decidido se deve ou não responder à notificação. Estimativas recentes mostram que, embora cada troca de tarefa desperdice apenas um décimo de segundo, isso pode resultar  numa perda de produtividade de 40% se você realizar muitas dessas trocas num único dia. Esse número pode ser maior se comparado a um executivo que gasta várias horas por dia em estado de fluxo.

E se você realmente verifica aquela notificação de e-mail? Você acessa sua caixa de entrada, responde ao e-mail e, aproveitando, percebe que há e responde a vários outros e-mails. Você se realiza com uma descarga de dopamina causada por uma tarefa cumprida e, trinta minutos depois, lembra que estava concentrado num trabalho mais importante e difícil que deve ser entregue até o final do dia.

Pesquisadores da University College London descobriram que os seres humanos são programados para seguir o caminho que oferece menor resistência e que nosso cérebro nos induz a acreditar que o que é de fácil acesso é o mais fácil a se fazer. Tim Urban, curador do superpopular blog Wait But Why, caracteriza esse traço como nosso “Macaco da Gratificação Instantânea”. “O macaco pensa apenas no presente e se preocupa inteiramente em maximizar a comodidade e o prazer do momento atual. Por que devemos usar o computador para trabalhar quando a internet está ali, nos esperando para brincar?

Essa predisposição, ao mesmo tempo em que torna nossa vida confortável e nos ajuda a conservar energia (o que pode ter sido útil quando os humanos fugiam de predadores), prejudica nossos objetivos; algo que os designers de produto das plataformas de tecnologia conhecem muito bem.

Uma máquina caça-níqueis no nosso bolso

Como Nir Eyal observou em seu livro Hooked: How to Build Habit-Forming Products, as empresas de tecnologia essencialmente estão se aproveitando de nossas vulnerabilidades psicológicas para nos fazer voltar querendo mais. Eyal escreve que um gatilho interno (nossa necessidade de conexão social) ou um gatilho externo (uma notificação) inicia o ciclo vicioso. Respondemos ao gatilho com uma ação (abrimos o Facebook) e desfrutando de uma recompensa variável e dopaminérgica (“Veja só, eu tenho sete notificações!”); então, nos envolvemos ainda mais com a plataforma (postamos um comentário). O ciclo continua, só que o próximo gatilho interno pode ser: “Será que alguém já respondeu ao meu comentário?” Repita o processo.

É por isso que o ex-especialista em design do Google e fundador do Center for Humane Technology, Tristan Harris, equiparou ter um smartphone a carregar uma máquina caça-níqueis no bolso. Não podemos resistir, e baixamos a manivela de vez em quando.

Isso não apenas representa um custo econômico significativo para as empresas, como também a piora do impacto no bem-estar mental das pessoas. Daniel Levitin, professor de neurociência comportamental da McGill University, diz que a alternância de tarefas é desgastante porque utiliza glicose oxigenada do cérebro, esgotando as mesmas reservas de energia necessárias para se concentrar em concluir uma tarefa. Tudo isso enfraquece o elo entre as horas trabalhadas e o valor criado; como consequência, nossa motivação é afetada e ficamos mais ansiosos à medida que nossa carga de trabalho se acumula — e mais exauridos quando chega o fim do expediente.

Domine sua tecnologia

Como com qualquer ferramenta, a utilidade se resume em como você a utiliza. Somos capazes de conseguir muito mais com a tecnologia a nosso serviço do que sendo dominados por ela.

Um estudo da London Business School descobriu que, na maioria dos casos, as pessoas escolhem a opção padrão que lhes é atribuída. Autor de Atomic Habits, James Clear diz que “o ambiente em que você está determina as ações padrão que você realiza diariamente, o que é um ponto positivo, porque você pode projetar seu ambiente para o sucesso”.

Se você preferir não abrir um pacote de Doritos às 9 horas da noite, não ter nenhum Doritos em sua casa ajuda muito a alcançar o resultado desejado. Nesse mesmo sentido, você pode ser mais intencional em relação à maneira como você projeta seu ambiente de tecnologia. Para começar:

Desative todas as notificações tanto em sua área de trabalho quanto em seu smartphone.

Desligue o telefone ou configure-o para o modo avião em períodos determinados.

Utilize o aplicativo Freedom para bloquear aplicativos que não são fundamentais no trabalho (como os de mídias sociais) por tempo determinado ao longo do dia.

Use o plug-in “escrever e-mail” do Google Chrome para ver apenas a janela de nova mensagem ao escrever um e-mail, o que lhe permite escapar das tentações que o aguardam em sua caixa de entrada.

Defina janelas no seu dia para verificar e responder a e-mails em lote.

Utilize um cronômetro Pomodoro para dividir o tempo entre as tarefas importantes e as menos indispensáveis.

Use o aplicativo Digital Wellbeing (Android) ou o Relatório de Atividades da Apple para acompanhar o tempo de uso e se reprogramar depois de levar um susto (“Eu passei quantas horas no Twitter ontem?!”). O RescueTime fará o mesmo com seus padrões de uso no computador.

Além de todas essas ferramentas, quanto mais atento você estiver e se controlar para não interagir com seu smartphone, mais isso se tornará um hábito natural.

Os líderes podem ajudar suas equipes por meio das seguintes iniciativas:

Comunique o impacto da alternância entre tarefas sobre a produtividade e o bem-estar mental.

Pratique a comunicação assíncrona em sua empresa (deixe claro que não há problemas em não responder a solicitações imediatamente, mas, sim, no momento em que for mais conveniente).

Incentive ou exija que as pessoas desativem todas as notificações.

Permita que as pessoas reservem de duas a quatro horas para concentração profunda no trabalho.

Defina claramente o que é urgente e o que não é.

Crie espaços onde as pessoas não possam ser fisicamente interrompidas (ou incentive o trabalho remoto).

Recompense os membros da equipe que passam menos tempo no smartphone.

Faça menos reuniões e reduza o tempo de duração delas.

Defina janelas na agenda quando as reuniões internas serão realizadas e os espaços em que não deve haver reuniões.

Ao ter um objetivo desenhado sobre nossa relação com a tecnologia, podemos criar um ambiente de trabalho no qual, além de sermos mais produtivos, possamos nos tornar versões mais completas e bem realizadas de nós mesmos.

 

Disponível em: https://hbrbr.uol.com.br/nao-deixe-as-notificacoes-push-arruinarem-sua-produtividade/  Acesso em: 17 Abril 2019

Veja Também

As curtidas do Instagram sumiram. Como isso afeta o seu negócio?

Especialistas reforçam a geração de conteúdo de impacto e qualidade, além da utilização de outras métr...

Saiba como identificar e reduzir a rotatividade de pessoal nas empresas

A alta rotatividade de pessoal é um grave problema para as organizações, pois sufoca a força de trabal...

B2W, das lojas Americanas e Submarino, testa envio de mercadorias com drones

Entregas devem ser realizadas entre centros de distribuição e lojas; expectativa é que projeto comece ...

Peça o seu Orçamento

Nossa equipe esta esperando pelo seu contato......

Clique Aqui