As lições do coronavírus para a experiência do funcionário

Muitos ainda acreditam que a principal motivação do ser humano é a recompensa econômica. A pandemia nos mostrou que, muitas vezes, a motivação humana transcende aspectos meramente financeiros

Por: Lucas Prado - Harvard Business Review 

Mesmo diante de condições adversas de trabalho, seja em teletrabalho ou nas atividades essenciais, o que se percebeu foi um crescimento exponencial da motivação dos empregados em todo mundo. Do ponto de vista emocional, todo esse empenho para superar a covid-19 e se adaptar a uma nova realidade começa a se transformar em cansaço, esgotamento e, para muitos, até em frustração e depressão.

À medida que a covid-19 se disseminou pelo mundo, percebeu-se um aumento expressivo do foco na experiência do funcionário entre os líderes de RH e gestores. Em uma pesquisa realizada pelo Instituto Future Workplace sobre quais as principais tendências para 2020, a experiência do funcionário ficou em primeiro lugar para 50% dos entrevistados, na frente de tecnologias como inteligência artificial, gerenciamento de desempenho e people analytics em 41%, 35% e 32%, respectivamente.

Coincidentemente, no ano passado, a Bersin realizou uma pesquisa para saber o que as empresas estavam fazendo para melhorar a experiência de seus funcionários. As três principais ações identificadas foram: (1) vantagens e eventos, (2) recompensas e (3) equilíbrio trabalho / vida pessoal. Todos, sem dúvida, são aspectos importantes do trabalho, mas nenhum realmente captura o significado pessoal que os funcionários estão buscando. A pesquisa demonstra que muitos empregadores não conseguem capturar o lado humano dos trabalhadores. Segundo a Deloitte, 30% dos empregadores acreditam que os funcionários são a parte mais negligenciada quando sua organização está lidando com uma crise. 

Seres humanos são dinâmicos, complexos, imprevisíveis e não possuem um botão de turbinar o desempenho. Não há um manual de como fazer seus funcionários se sentirem motivados ou engajados, principalmente em cenários de crise como o que vivemos. Essa não é uma tarefa fácil, uma vez que o desempenho dos funcionários está cada vez mais influenciado por fatores externos aleatórios e imprevisíveis. Todavia, as organizações que vieram investindo em experiência do funcionário no últimos anos estão melhor preparadas para lidar com a crise e serão capazes de se adaptar com mais facilidade à este novo contexto pós-covid19.

Ao longo dos últimos cinco anos, alguns organismos internacionais, como Banco Mundial e OCDE, têm se dedicado a realizar pesquisas nessa área da economia comportamental e descoberto alguns aspectos não remuneratórios que podem ser determinantes para o desempenho humano no trabalho:
 

Intervalo de tempo entre esforço e reconhecimento 

Quanto maior o tempo para ser um profissional ser reconhecido, maiores as chances de procrastinação e desmotivação. A recompensa de um bom desempenho deve ser imediata! Feedbacks contínuos e smart contracts podem ser soluções para motivar colaboradores em um organização e obter melhores resultados.
 

Diferenças individuais

Cada indivíduo tem seus próprios anseios e expectativas. Reconhecer isso não se confunde com criar uma cultura individualista avessa ao trabalho em equipe e à colaboração. Ao contrário, é preciso reconhecer o potencial de cada membro da equipe como parte fundamental de uma coletividade. Para avançar nessa direção, recomenda-se medidas de desenvolvimento pessoal, possibilidades de compensação de horários, inclusão, equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Com o uso de dados através de people analytics é possível aprimorar cada vez mais a percepção da singularidade dos indivíduos nas organizações e melhorar a tomada de decisões.
 

Empoderamento 

Engajamento e empoderamento andam de mãos dadas. É importante ampliar a participação dos funcionários nas tomadas de decisão e apoiá-los no alinhamento de suas próprias ações para conciliá-los com os objetivos chave da organização. Esta visão institucional é complementada pela relação harmônica entre os funcionários e seus superiores. Promover espaços abertos de gestão compartilhada pode, além de engajar equipes, reduzir a burocracia, evitar sobrecarga dos líderes, estimular a transição de carreiras e otimizar o uso das ideias inovadoras para a solução de problemas.

Percepção de justiça

Ter colegas de trabalho realizando as mesmas atividades e recebendo melhores salários pode ser algo frustrante e gerar prejuízos para a organização como um todo. Neste sentido, é muito válido adotar políticas de transparência dentro da empresa que permitam a todos visualizarem as recompensas de uma boa performance.
 

Retorno claro no seu investimento em aprender novas habilidades ou utilizar novas tecnologias no trabalho

Aprender coisas novas é excitante. Já parou para pensar na quantidade de horas de lives que você assistiu nesta pandemia sem ganhar nada por isso? Seja um novo idioma, tocar um instrumento musical ou aprender uma linguagem de programação?  A neurociência comprova que reforços positivos afetam o córtex, liberando grandes quantidades de dopamina, neurotransmissor responsável pelas sensações de prazer e aumentam o número de sinapses cerebrais, mas o que é considerado estimulante varia de indivíduo para indivíduo. Quanto mais claros e estimulantes forem os incentivos para o desenvolvimento de hard skills, melhor. O cérebro agradece. Já parou para pensar quanto conhecimento foi adquirido pelos seus funcionários durante a pandemia por meio de lives e cursos online? Valorize isso na sua empresa e promova uma cultura de multiplicação de novos conhecimentos, incorporando mais significado ao trabalho.  

Melhoria na comunicação intra-organizacional

Com a internet, as redes sociais e os smartphones, a comunicação tem assumido um papel cada vez mais central em nossas vidas. Dedicamos grande parte de nosso tempo a nos comunicarmos. Porém, nem sempre essa comunicação é bem aproveitada. A influência dos grupos e pares é determinante para um ambiente de trabalho mais motivante. Alguns experimentos demonstraram que as informações compartilhadas entre os pares são mais eficazes que comunicações formais. Aprendemos com a pandemia que existem dezenas de plataformas que podem tornar comunicação intra-organizacional muito mais clara, eficiente e produtiva. Cabe, contudo, respeitar os limites biológicos nesse contexto de teletrabalho, garantindo o direito à desconexão como condição elementar de bem-estar.  
 

Discussões sobre o bem-estar e a saúde mental no local de trabalho

Às vezes precisamos colocar o dedo nas feridas! Esta pode ser talvez uma maneira bastante eficiente de encontrar soluções criativas e inovadoras para problemas de saúde ocupacional, principalmente os de natureza emocional como depressão e síndrome de burnout. O simples fato de ter a oportunidade conversar sobre questões relacionadas à saúde e bem-estar já é capaz de gerar um ambiente de trabalho mais saudável. Os canais de comunicação internos devem estar abertos para as angústias e sofrimentos de seus empregados. Neste momento delicado que atravessamos, esta se torna uma ação fundamental para ser adotada nos ambientes de trabalho a fim de cuidar da saúde mental dos funcionários. 

Nem sempre é preciso investir muito para encontrar formas de motivar seus funcionários. Soluções simples de diálogo, diversidade, cuidado, empatia, justiça e transparência podem ser bastante eficazes, principalmente neste contexto em que todos estamos de alguma forma abalados emocionalmente diante das incertezas e das perdas. Uma recente pesquisa da McKinsey com mais de 800 funcionários, mostrou que é possível alcançar uma melhoria de 55% no engajamento, atendendo às necessidades dos funcionários de reconhecimento do trabalho por meios não financeiros.

As organizações devem começar a ir além do pensamento sobre a experiência do funcionário em termos de vantagens, recompensas ou suporte e se concentrar no ajuste, no design e no significado do trabalho – para todos da empresa. Para colher todas as recompensas da harmonia e bem-estar no local de trabalho, é preciso transformar a “experiência do funcionário” em uma “experiência humana” que envolva todos na empresa e fora dela! Esta é uma das principais lições que a covid-19 trouxe e que precisa ser implementada na cultura empresarial.

Estamos diante de uma oportunidade de reformular e elevar a experiência do funcionário, expandindo essa terminologia para capturar a essência humana e agregar valor a ela. Regalias, recompensas e suporte podem ser bons recursos de gestão de pessoas em um determinado contexto, mas o ajuste, o design e o significado do trabalho farão muito mais no sentido de motivar os funcionários e alcançar melhores resultados. 

 

Disponível em: https://hbrbr.com.br/as-licoes-do-coronavirus-para-a-experiencia-do-funcionario/ Acesso em: 23 Set. 2020

 

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